leitura: “fio d’água”, capítulo 7

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sempre que a chuva enchia o quintal de casa, minha avó contava do sonho que tinha: cimentar tudo. 

lá em casa, o cimento representa muita coisa. a força pode ser compreendida pela capacidade de carregar um ou mais sacos de cimento (ou até mesmo se a gente pesa mais ou menos que um saco de cimento). a qualidade de vida é calculada pela quantidade de cimento que tem a sua casa (número de cômodos, altura das paredes, espessura do reboco, tem laje ou não tem, etc). o otimismo pode ser medido pelo número de sacos de cimento que você vai comprar (teremos obra ou não, a reforma sairá ou vamos ficar no remendo, etc).

tudo muito concreto.

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por muitos anos morei no centro de niterói. nessa época, construíram o caminho niemeyer na beira da baía de guanabara. nunca pude deixar de pensar na quantidade de cimento que gastaram para concretar tudo. 

eu honestamente não sei fazer esse cálculo, mas ainda assim consigo me impressionar.

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a fuga de orsina com o curumim encontra pouso firme no bairro alvorada 2. no sobrado há coluna, emboço, laje. é por meio do cimento que o menino conhece o processo civilizatório. distante da água, seu único contato com o rio agora é mediado pelas fezes e urina que endereça educadamente por igarapés manilhados até o negro.

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voz: daniel massa
edição: daniel massa
câmera: gabriela rezende
livro disponível em https://7letras.com.br/livro/fio-dagua/

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