leitura: “fio d’água”, capítulo 5

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quando estive a primeira vez no bairro educandos foi pra conhecer a feira da panair. não saía da minha cabeça aquela música do milton sobre a saudade dos aviões. em algum momento achei engraçado mudar a letra pra cantar “descobri que a minha arma é o que a memória guarda da feira da panair”. mas engraçado mesmo foi descobrir que boa parte de manaus não conhece a feira da panair, mas conhece a feira da panaír ou simplesmente panaí, o que destruía o ritmo da minha paródia.

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um amigo manauara contou que no local onde hoje fica a feira, funcionava o galpão da panair, a mesma panair que dá saudade no milton. a empresa foi pioneira em voos comerciais na amazônia nas décadas de 30 e 40. muitas das viagens eram feitas em hidroaviões, que pousavam nas águas da bacia amazônica. e às magens do rio negro, a panair construiu um grande galpão, utilizado para operar os voos de manaus.

acontece que a panair fechou e o galpão ficou lá no educandos parado. até que na década de 50 alguém teve a ótima ideia de ocupar o espaço com uma feira central, vendendo sobretudo peixe. muito peixe.

tem uma música do nicolas jr chamada “feira da panaí” em que o sujeito acorda de manhã com vontade de comer um peixe e corre para a feira. o problema é que ele chega lá e tem tanta opção que não consegue escolher:

“tem pirapitinga, cará e apapá,
cachorra e branquinha limpa pra levar
piranha da branca e tucunaré,
tem jatuarana se você quiser
ai meu deus e agora qual que eu vou levar
nunca vi fartura tanta num lugar”

no momento em que “fio d’água” foi engrenando, me pareceu uma boa criar um capítulo chamado “descobri que a minha arma é o que a memória guarda da feira da panair”. o poema é todo uma paródia do milton e narra parte da primeira infância de moisés. na panaí, diante de fartura tanta, o menino tem fome e procura o que comer.

outra coisa curiosa é que o título do capítulo é o maior verso do livro, o único que ficou quebrado na página com aqueles colchetes feios. mas é um verso bonito, milton. parece o rastro de um hidroavião pousando no rio negro.

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voz: daniel massa
edição: daniel massa
câmera: gabriela rezende
livro disponível em https://7letras.com.br/livro/fio-dagua/

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