sábado eu estava assistindo ao noticiário local na bandeirantes quando apareceu o bairro educandos. a gente tinha ido lá na sexta ver a feira da panair e dar uma caminhada. segundo a reportagem, uma senhora acionou a polícia porque dois homens estavam escondidos na laje de sua casa. a história era complexa, mas me parece que os sujeitos haviam pulado de um carro em movimento porque seriam executados no bairro raiz. aí escalaram uns muros e se abrigaram na laje. a polícia foi até lá e resgatou os dois, que prestaram depoimento e foram liberados. fiquei com muitas perguntas em aberto.
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em dezembro de 2018, a favela do bodozal, no educandos, pegou fogo. foi o segundo maior incêndio da história do amazonas. cerca de 600 casas foram queimadas e mais de 2 mil pessoas ficaram desalojadas. a perícia disse que tudo começou com uma panela de pressão, que explodiu.
há muitas palafitas no bodozal. elas se equilibram em pernas finas de madeira, metros acima do chão. entre abril e junho, quando o rio negro alcança o nível máximo, a água invade as casas. as pessoas sobem as marombas, estrados de madeira sobre o piso, para manterem-se secas.
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para o povo desana, todas as humanidades surgiram a partir de uma longa viagem em uma cobra-canoa. ao longo do trajeto, algumas paradas foram feitas. esses pontos ficaram conhecidos como malocas de transformação. em manaus, mais precisamente no bairro educandos, está a maloca da cobra, para alguns o centro do universo indígena.
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“fio d’água” tem muitas referências bíblicas. ao mesmo tempo, a narrativa também conversa com os povos tukano e a cosmologia desana. muita coisa numa panela só.
“inveja de noé” agrava o conflito entre o rio negro e orsina, missionária evangélica que vê a cheia história invadir a palafita onde se assentou com o curumim. a fuga, iniciada ainda em são gabriel, só encontra um descanso no momento em que orsina foge para a casa de oração da assembleia de deus do bairro raiz.
penso agora na missionária pulando de um carro em movimento com a criança no colo, correndo da água preta até alcançar uma laje cimentada.
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voz: daniel massa
edição: daniel massa
câmera: gabriela rezende
livro disponível em https://7letras.com.br/livro/fio-dagua/

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