leitura: “fio d’água”, capítulo 3

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na amazônia, tudo depende do rio. é ele quem define o que se come, como se vive, onde se vai.

mas o progresso impõe a velocidade das estradas. no início do mês percorremos um trecho da br-174, onde o genocídio do povo waimiri-atroari aconteceu. um senhor me disse que quando as máquinas chegaram, os guerreiros kinja invadiram os canteiros de obras e tentaram amarra-las com cipós extremamente resistentes para impedir o seu funcionamento. não deu certo.
estima-se que 90% dos waimiri-atroari foram mortos neste etnocídio. o único sobrevivente de sua aldeia conta que um avião sobrevoou as malocas em rasantes. quando todos foram para fora observar o que estava acontecendo, a aeronave soltou uma espécie de pó que atingiu crianças, mulheres, homens, velhos… em pouco tempo, sentiram a pele queimar e paralisaram com muita dor. todos morreram.

a estrada foi aberta. hoje, os waimiri-atroari fecham a pista todos os dias no final da tarde e só reabrem ao trânsito quando o sol nasce. um cipó amarrando a br.

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a estrada de manacapuru passa a poucos km das anavilhanas. acho que foi o nelson que me falou preocupado sobre essa proximidade. há interesse em abrir outra pista ali perto, conectando o solimões ao negro. eles se organizam, resistem. mas aos poucos, as ocupações às margens da estrada de manacapuru vão avançando em direção ao negro, entrando na rds. o progresso é um inimigo poderoso.

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não há estradas em são gabriel. chega-se de barco ou de avião.
quando escrevi o poema sobre a viagem de orsina com o menino em direção a manaus, pensei nos barcos antigos que levavam até uma semana de viagem. as redes atadas, os laços construídos. agora só existem dois desses barcos por mês. o pessoal tem preferido pegar o expresso (quase um ônibus aquático que leva 20h) ou mesmo o avião, com snacks industrializados.
são muitos os dias de viagem que orsina passa ao lado do menino, alimentando-o e decifrando-o. quando chegam ao bairro educandos, já são avó e neto. isso não seria possível num voo da azul.

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voz: daniel massa
edição: daniel massa
câmera: gabriela rezende
livro disponível em https://7letras.com.br/livro/fio-dagua/

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